quarta-feira, 13 de junho de 2012

ATO V - Poemas - Jessica Freudenthal


eric blog
ANO I
N.5
São Paulo
2012


Se não sangra, a minha escrita não existe. Se não rasga o corpo, tampouco existe.
Tatiana Salem Levy, “A chave de casa”


ATO V

Poemas escolhidos de Jessica Freudenthal

Poemas extraídos de Hardware
Plural Editores: La Paz, 2009.
2° edição revista e ampliada.

Tradução de Eric Dantas. São Paulo, 2011.


1. Subtração poética
Para Raúl Zurita

escrevo com medo
desde o medo
de pôr a palavra
a palavra incorreta

poetiza! poetisa!

poetita de merda

Medo
morro
morro
de medo
de não saber
de onde venho

da Bolívia
dizem que venho

bolivianita

que bonita palavrita

vazia

escrevo com medo

vazia

escrevo com tédio

não sou de parte alguma

Chukiago Marka não existe

somente a pedra
o silêncio

as caveiras

ecoando
             ñatita ñatita
recitando

vem a morte
ecoando

Escrevo com medo

a palavra se corta
a palavra se
Corta
a palavra
se corta
a
palavra se
corta

Chukiago Marka não existe
                                                 é apenas um nome
escrito com medo

escrevo como posso

não penso
nos criticantes nem nos amantes
tampouco nas consoantes
somente nas assonantes

Medo

Chukiago Marka não existe

não há alfabeto
para dizer

qual será a letra milenar para escrever?

Erro

poetita de merda.


2. Xis

Este poema              se                 desfaz
se despedaça                                nos vincos do silêncio
lenta
           mente
           tentando sujeitar-se          ao verbo
           a um adjetivo                    que não existe.

Este poema se rompe:
                                                     Acaba de parir outro poema.
se esvazia da forma
e no fundo está o pronome.

                                                     Meu coração morre
                                                     de rir
                                                     quando me vê chorar.
Este não é um poema.
Isto não é um poema.

É um fragmento incompleto do abismo,
um simulacro de                                                   fuga
pura ginástica cerebral,
um pálido pedaço de papel,
Todos os pontos suspensos...


3.  Os mortos

“Os mortos estão nesta terra
cujo mistério evapora e os abriga”.
Paul Valéry

Silenciados, esfarrapados,
ausentes e com cicatrizes,
debaixo das sombras se escondem como aranhas,
irrompem escuridões espessas e rasgadas.

Se ferram entre arames,
entre bálsamos traiçoeiros
a terra que se contrai.

Nós não podemos nada 

Dizer nada
                                                               Tocar nada 
                     Ouvir nada                        Morrer nada
Viver nada

Apenas os silenciados e esfarrapados,
os que se quebram e agonizam
podem arder como velas.

Nós apenas somos feitos de abismos:
O tempo nos despreza.


4. Poeira

Atravessar a memória,
as palavras suspensas
    de repente
nas esquinas.

Pensar,
ficar quieto
e avistar o silêncio
pelo olho do mundo.

Atravessar o esquecimento
trazendo nas costas a memória,
os remendos do tempo
e o alento inacabado
da luz.

Dar um passo
para o abismo.

Cair
irremediavelmente
dentro
de si mesmo.


5. Mitos

O mito
prato fundo
circular

A mesa da origem
ordenada
posta

na cabeceira o homem
a mulher à sua esquerda
e o sal
próximo do fruto
testemunhando o incômodo
do porta-guardanapos e seus entalhes

Servidos
os olhos de Tirésias,
o pescoço de Jocasta,
a boca de Antígona,
em salmoura

Os pés de Édipo
vem

O azeite

impregnado na linguagem
sobre a medida voraz do dia
que vê o início
de uma trégua
entre os pratos quebrados.



Posfácio
A ginástica cerebral de Jessica Freudenthal
Juan Carlos Ramiro Quiroga

Hardware (La Paz, 2004), de Jessica Freudenthal Ovando é a evidência indiscutível do fracasso da decisão do jurado na eleição dos ganhadores das cinco versões do Prêmio Nacional de Poesia “Yolanda Bedregal”, com a exceção de Antonio Terán Cabero e Jorge Campero.

Em cada anúncio dos ganhadores desse prêmio nacional as menções são mais alentadoras e sugestivas do que os próprios premiados. Isso ficou claro a partir do momento em que a Plural Editores, a engrenagem principal de “Yolanda Bedregal”, começou a divulgar os resultados em sua linha de difusão e promoção.

Efetivamente, Hardware é um livro de poesia excepcional pela beleza lacerante de suas ironias e a despojada polifonia de leituras (Tristan Tzara, Sylvia Plath, Roque Dalton, Paul Valéry, Humberto Quino Márquez, Pope, Charly García, Agustín Bartra, Yamilé Paz Paredes) que vem a perfilar mais que apoiar a consciência fatalista da autora.

Tal como o crítico e semiólogo francês Roland Barthes, Jessica Freudenthal realiza uma leitura personalíssima das mitologias contemporâneas (o eterno feminino, o trabalho intelectual, o doméstico ou familiar), até deslocá-las de seus significados tradicionais por outros que são talvez mais reais ou atuais. A partir desse “abismo” lança seus dardos.

Não há em Hardware nem um pouco da complacência, da contemplação e da inocência feminina (características da mulher submissa e obediente), mas ao contrário: a descortesia, a intimidação e o sarcasmo de Lilith, a primeira mulher criada por Deus.

A partir desse ponto de vista, o ambiente familiar e doméstico não é o que parece ser, senão o que está a ponto de revelar o fio da linguagem de Jessica Freudenthal. Sua palavra é uma espada que fere de ironia os valores mais profundos da cotidianidade.

Indo mais além, os poemas de Hardware rompem ou quebram a face monótona da realidade comum, quer dizer, se estilhaçam contra as unhas e as boquinhas pintadas da hipocrisia familiar, doméstica e urbana. Nunca mais argumenta Freudenthal ao sonho americano made in Walt Disney.

Ao ser uma crítica do ambiente familiar e doméstico, Hardware é também não pode deixar de ser uma crítica da linguagem que o assinala, porque a ironia funciona em ambos os lados tanto na realidade como na imaginação, porque transforma ambos significados.

Por isso o livro de Freudenthal é, acertadamente dito pela autora, “um simulacro de/pura ginástica cerebral”. Nada mais pontual que esta observação ressaltada no início da obra poética a fim de estabelecer o jogo.

Não obstante, o sarcasmo utilizado em Hardware produz, no ápice de contato com o leitor, um curto-circuito. O poema deixa de ser o poema que vem orientar a existência humana para converte-se em uma simples vantagem: um “poema curita” como diz Freudenthal.

A poesia de Freudenthal vai na mesma direção da poesia de Humberto Quino Márquez: irreverente com as coisas familiares do mundo e também irreverente consigo mesma com a mesma paixão e agudeza da argentina Laura Yasán ou a alegria da chilena Malú Urriola.

domingo, 13 de maio de 2012

ATO IV - Crônica - Wendy Guerra


eric blog
ANO I
N.4
São Paulo
2012


Não dirijo nada. Nem as minhas próprias palavras. Mas não é triste: é humildade alegre. Eu, que vivo de lado, sou à esquerda de quem entra. E estremece em mim o mundo...
Na hora de pintar ou escrever sou anônima. Meu profundo anonimato que nunca ninguém tocou.
Clarice Lispector, “Água viva”

ATO IV

A menina vestida de preto
Wendy Guerra

Título original: La niña vestida de negro

El Mundo, 10 de diciembre de 2009.
http://www.elmundo.es/elmundo/blogs/habaname

Tradução de Eric Dantas. São Paulo, 2011.


Este mês faço 39 anos. Estarei em Havana, em minha casa, como sempre, escrevendo, lendo, ouvindo jazz cubano e vendo passar um ou outro barco perdido no horizonte.

Um dia antes, inventarei minha própria festa, cozinharei para os amigos, e organizarei o modo deles acertarem uns com os outros possíveis caminhos que os conduzam até meu bairro.

Minha mãe achava que comemorar o aniversário era algo de muito mau gosto; justificava nossa solidão sem recursos com teorias extravagantes.

Ela odiava “a criançada dentro de casa”, que na realidade era um apartamento pequeno cheio de livros. Na foto que tirei no dia do meu primeiro aniversário estou com um vestido preto que ela fez para mim. Uma menina vestida de preto em uma cidade provinciana podia ser um tremendo espetáculo. Mas ninguém nos viu cear juntas, solitárias, vestidas de preto, ouvindo “Rádio Cidade do Mar”. A foto foi tirada de graça e de última hora por um amigo jornalista que admirava o mundo de mamãe.

As suas contemporâneas comemoravam assim os aniversários de seus filhos: foto ao lado do bolo, empurra-empurra para pegar o bolo, o rabo de burro, o jogo de cadeirinhas, gincana ou sorteio de presentes e uma “caixinha” de papel-cartão cheia de salada fria, croquetes e bolinhos. Sob a chuva voltavam para casa com um jornal na cabeça e uma porção de doces para seus familiares. Tudo isso acontecia nas outras casas, mas também podia acontecer na escola; pertenço à geração de pioneiros dos “aniversários coletivos”, círculos infantis, semi-internos ou bolsistas.

Os meninos “sortudos” comemoravam com palhaços ou mágicos, que me deixavam em pânico. Conhecia todos eles do teatro de marionetes que meu pai dirigia, sabia seus hábitos de cor, as perguntas óbvias, os cálculos artificiais, e para terminar sempre faziam uma piada de mau gosto sobre seu colega, meu pai, que um dia desapareceu com um único truque de mágica.

Estou retratada em preto-e-branco como testemunha de aniversários alheios. Apareço com vestidos emprestados, ou com uniforme vermelho-grená amassado às cinco horas da tarde, poso com cara de “tenho-que-ir”, fingindo ser uma menina entre os meninos.

Agora acontece o contrário, faço a personagem adulta, não tenho crescido muito, mas ainda vivo em um lugar cheio de problemas que me superam, que saem pelas janelas; há peixes coloridos, peixes mais vivos que mortos, um terrível pôr-do-sol, amanheceres sublimes e amigos ou amores fiéis que sobreviveram ao exílio.

Chegou dezembro; exposições de pintura, estreias de filmes que são projetados no Festival que entra na cidade como Rumos. Cinemas fechados, cinemas que resistem, cinemas renovados, como todos nós. Por que me inquieta tanto a cidade onde vivo? Porque se parece comigo, nos parecemos com a nossa cidade, também somos responsáveis por ela.

Estou bem de saúde, mas também preocupada. Tenho o rosto franzido; os olhos ainda brilham enquanto mordo a boca num gesto de minha mãe. Daqui para frente terei de mudar totalmente meu estilo, usarei este ano, véspera dos quarenta, para domar a moça que deve saber como chegar com sutileza à maturidade.

O ritual de aniversário se aproxima. Tentarei ver o melhor de tudo que me cerca, o Monte Barreto, as árvores que me protegem, o litoral, os concertos de músicos que admiro, a visita dos amigos, suas piadas e longas confissões. Vou escolher um ângulo menos ocre para esta fotografia de dezembro. Todas as saudações e despedidas, as menos dramáticas. Emoldurarei quadros embrulhados, responderei cartas esquecidas e serei a que confecciona a “caixinha” dos aperitivos da festa. Representarei o mesmíssimo aniversário coletivo, talvez o verdadeiro motivo que me faz seguir na cidade de sempre.

Ainda que desta vez tenha um detalhe importante; dos que ficamos, gente que tem sofrido perdas e tem sobrevivido, vão estar na foto apenas quem eu escolher e não os escolhidos pelo diretor da escola.

Nem apaixonados, nem estranhos, nem indicados, “nem convidados de ocasião”. Apenas amigos íntimos acima dos 39 anos. Neste aniversário darei uma grande lição a mim mesma e, todos juntos, daremos adeus à menina que há muito tempo devia ter deixado para trás.




sexta-feira, 13 de abril de 2012

ATO III - Artigo - Beatriz Sarlo

eric blog
ANO I
N.3
São Paulo
2012


Resumindo: toda comunicação de conteúdos espirituais é língua, linguagem, sendo a comunicação pela palavra apenas um caso particular: o da comunicação humana e do que a fundamenta ou do que se funda sobre ela (a jurisprudência, a poesia). Mas  a existência da linguagem estende-se não apenas a todos os domínios de manifestação do espírito humano, ao qual, num sentido ou em outro, a língua sempre pertence, mas a absolutamente tudo. Não há evento ou coisa, tanto na natureza animada, quanto na inanimada, que não tenha, de alguma maneira, participação na linguagem, pois é essencial a tudo comunicar seu conteúdo espiritual.
Walter Benjamin, “Sobre a linguagem em geral e sobre a linguagem do homem”


ATO III

Se Borges não tivesse existido
Beatriz Sarlo

Título original: Si no hubiera existido Borges

La Nación
Viernes, 10 de junio de 2011.
(Publicado en la edición impresa)

http://www.lanacion.com.ar/1379981-si-no-hubiera-existido-borges

Tradução de Eric Dantas. São Paulo, 2011.


Os lugares-comuns algumas vezes acertam. Por exemplo: é impossível pensar a literatura argentina sem Borges. Peça-chave do século XX, a partir dele se cruzam ou se dispersam todas as linhas. Isto vale até o começo de 1980. Desde então aconteceram coisas diferentes que dariam lugar a outra nota, cujo título poderia ser “A literatura argentina depois de Borges”, quando começou a funcionar de modo mais “normal”, menos vulcânico; segue sendo o Grande Escritor com quem, no entanto, já nem todos ajustam contas e se traçam diagonais que Borges não pisou. A culminação absoluta e o apaziguamento.

Como teria sido a literatura até os anos oitenta sem Borges? É difícil imaginar Bioy Casares sem o prefácio de A invenção de Morel, que Borges escreveu. Mas podemos imaginar outros que, provavelmente, teriam desenhado uma cartografia diferente, despojada do “centro Borges”. A pergunta permite pensar “vagamente”, não como se algo faltasse senão tentando imaginar sua radical inexistência. Se pensarmos nele como um simples ausente o exercício nem valeria a pena.

Por outro lado, se trata de esquecer que existiu e reordenar o que fica. Os livros inaugurais do “novo” teriam sido Vinte poemas para ser lidos no trem (1922), Imitações (1925) e Espantalho (1932), de Oliverio Girondo, e não a série Fervor de Buenos Aires (1923), Lua defronte (1925) e Caderno San Martín (1929). Provavelmente ninguém teria relido Evaristo Carriego, como fez Borges, e a poesia argentina teria em seu centro operações mais “vanguardistas”, como as de Girondo. E em lugar das margens portenhas, o bairro e as ruas retas até o horizonte, estaria a paisagem fluvial e fluida de Juan L. Ortiz. Na ausência de Borges, provavelmente essas seriam as duas grandes linhas poéticas da primeira metade do século XX.

Martínez Estrada foi o grande escritor ideólogo; mas sem Borges, não haveria obstáculos para pensá-lo, unicamente, como o grande ensaísta do século. Por outro lado, seus relatos desembocariam no centro do sistema. O prodigioso “Marta Riquelme”, por exemplo, teria inventado um espaço original, fantástico, labiríntico, arbitrário e terrível. “A inundação” teria sido o tributo que a literatura argentina, na ausência de Borges, rendeu a Kafka, o escritor que Borges admirou de modo incondicional. Mas algo estaria faltando. Martínez Estrada não é tão citado como Borges, e uma literatura é, entre outras coisas, um sistema de citações e reconhecimentos, diálogos, empréstimos e deformações.

Sem Borges, a forma mais simples de ordenar a literatura da primeira metade do século cairia em pedaços. A solícita oposição na qual Borges foi o que Arlt não pôde ser e vice-versa dá uma ordem aos livros até 1950. Mas sem Borges, a originalidade de Arlt se ligaria diretamente com a de Puig: dois escritores que escrevem “na margem” da literatura, ainda que seja um mito sustentar que não sabiam literatura. Arlt escreve a partir do jornalismo, do folhetim e do romance russo (Borges detestava o romance russo, mas o agradavam, como uma debilidade, apenas os folhetins gauchescos); Puig escreve a partir do romance sentimental e do imaginário do cinema (Borges detestava o romance sentimental, e se interessava pelo cinema, mas não à maneira de Puig: mantinha suas distâncias, se desviava).

Provavelmente Bioy não teria sido quem realmente foi sem Borges e se reconheceria em Silvina Ocampo uma marca de originalidade muito forte. Ela não foi borgiana; sua escrita tem uma obscuridade, uma imprecisão calculada, uma perversidade na junção de palavras que não são borgianas. Há em Silvina Ocampo uma espécie de rebeldia à racionalidade formal, à trama bem composta e à nitidez do complexo (a grande marca de Borges) que a coloca sempre como uma outsider. Sem Borges, Silvina Ocampo teria sido uma alternativa de primeiro plano, não uma escritora estranha que, paradoxalmente, esteve próxima de Borges durante muito tempo.

Alguns escritores não tocados pela ausência de Borges: Leopoldo Marechal, por exemplo. Pouco teria mudado. Adán Buenosayres está escrito em absoluta contemporaneidade com os grandes relatos de Borges, mas como se pertencesse a um sistema musical diferente, com outros tons e escalas. O caminho de Marechal teria sido provavelmente o mesmo. Borges e Marechal não dialogavam. Cortázar, por outro lado, lia Borges e declarou que quis escrever na língua que Borges usava. Como inventor de ficções buscou o que Borges rechaçava: o shock do surrealismo, o disparate da patafísica. Não estou muito segura de que Borges foi indispensável do modo em que foi para Walsh ou para Piglia. O fantástico de Cortázar não é uma resposta a Borges; é algo diferente.

Sem Borges o que teria sido de Saer? Seu primeiro livro Na zona, de 1960, é tão borgiano como uma homenagem ou uma ironia. Depois, Saer (um dos melhores leitores de Borges) se dedica ao que é seu, como se Na zona tivesse sido o passo necessário para mostrar que qualquer um imita Borges, em um momento de cópia necessária e de competência temerária que, uma vez atravessado, abre um território original. Copiar para exorcizar; copiar para ausentar.

Sem Borges, a literatura argentina não teria um capítulo “antiBorges”, onde se discutiram as implicações entre figuração literária e ideologia política. AntiBorges é o título da compilação, feita por Martín Lafforgue, desses debates. Ainda que pareça uma discussão velha, não é tanto e, às vezes, volta no momento menos pensado (precisamente porque é o momento em que se pensa menos). Sem Borges, o escritor de literatura fantástica mais citado teria sido Cortázar, que apresenta poucos problemas ideológicos depois de sua conversão à Revolução Cubana. A oposição fantástico-realista teria como objeto seus relatos.

Sem Borges, a teoria literária não teria encontrado uma obra que permitisse alcançar uma autoconsciência argentina: pensar problemas teóricos com textos escritos aqui, como se esses textos antecipassem aqueles problemas, adivinhasse-os e os deixasse em aberto. E ainda que a língua de Arlt e de Saer venham de geografias originais, sem Borges não se teria escrito nesse castelhano rio-platense límpido, tão criollo como cosmopolita, que (ao contrário dos enigmas rebuscados, porém banais) apenas mostra sua dificuldade magistral, seu desafio à inteligência, uma vez que o leitor começa a se aproximar e a compreender.






terça-feira, 13 de março de 2012

ATO II - Conto - Ricardo Piglia

eric blog
ANO I
N.2
São Paulo
2012


Subi até o alto, até a solidão infinita. Vi o Sol nascente iluminar os cimos.
Senti-me próximo das estrelas, quase em comunhão com elas. E triunfei.
Henrik Ibsen, “O pequeno Eyolf”


ATO II

Pequeno projeto de uma cidade futura
Ricardo Piglia

Título original: Pequeño proyecto de una ciudad futura

Publicado en El final del eclipse. El arte de América Latina en la transición al siglo XXI, José Jimenes (comp.)
Madrid: Edición Fundación Telefónica, 2001.

Tradução de Eric Dantas. São Paulo, 2010.


Muitas vezes ouvi falar do homem que numa casa do bairro de Flores esconde uma réplica de uma cidade em que trabalha há anos. Construiu-a com materiais mínimos e numa escala tão reduzida que podemos vê-la de uma só vez, próxima e múltipla e como distante na suave claridade da alvorada.

A cidade está sempre distante e essa sensação de distância de tão próxima é inesquecível. É possível ver os edifícios, as praças e as avenidas e ainda o subúrbio que declina para o oeste até perder-se no campo.

Não é um mapa, nem uma maquete, é uma “máquina” sinóptica; toda a cidade está aí, concentrada em si mesma, reduzida à sua essência. A cidade é Buenos Aires mas modificada e alterada pela loucura e pela visão microscópica do construtor.

O homem diz que se chama Russel e é fotógrafo, ou ganha a vida como fotógrafo, tem seu laboratório na Rua Bacacay e fica meses sem sair de sua casa reconstruindo periodicamente os bairros do sul, que a cheia do rio arrasa e alaga toda vez que chega o outono.

Russel acredita que a cidade real depende de sua réplica e por isso está louco. Ou melhor, por isso não é um simples fotógrafo. Tem alterado as relações de representação, de modo que a cidade real é a que esconde em sua casa e a outra é apenas uma miragem ou uma recordação.

A planta segue o traçado da cidade geométrica imaginada por Juan de Garay com as ampliações e modificações que a história tem imposto à remota estrutura retangular. Entre os cânions que se veem do rio e os altos edifícios que formam uma muralha na fronteira norte persistem os rastros da velha Buenos Aires com seus tranquilos bairros arborizados e suas pastagens de pasto seco.

O homem tem imaginado uma cidade perdida na memória e a reproduz tal como a recorda. O real não é objeto da representação senão o espaço onde um mundo fantástico tem lugar.

A construção apenas pode ser vista por um espectador por vez. Essa atitude incompreensível para todos é, no entanto, clara para mim: o fotógrafo reproduz na contemplação da cidade, o ato de ler. Quem a contempla é um leitor e portanto deve estar sozinho. Essa aspiração à intimidade e ao isolamento explica o segredo que tem acompanhado seu projeto até hoje.

Sempre pensei que o plano oculto do fotógrafo de Flores era o diagrama de uma cidade futura. É fácil imaginar o fotógrafo iluminado pela luz vermelha de seu laboratório e que na noite vazia pensa que sua máquina sinóptica é um código secreto do destino; e o que ele altera em sua cidade logo se reproduz nos bairros e nas ruas de Buenos Aires, porém de modo ampliado e sinistro.

As modificações e os desgastes que sofre a replica os pequenos desmoronamentos e as chuvas que alagam os bairros se tornam reais em Buenos Aires sob a forma de breves catástrofes e de acidentes inexplicáveis.

O fotógrafo atua como um arqueólogo que desenterra restos de uma civilização esquecida. Não descobre ou fixa o real senão quando é um conjunto de ruínas (e nesse sentido, certamente, tem feito, de um modo evasivo e sutil, arte política). Está alinhado com esses inventores obstinados que mantém com vida o que tem deixado de existir. Sabemos que a denominação egípcia do escultor era precisamente “O-que-mantém-vivo”.

A cidade trata então sobre réplicas e representações, sobre a percepção solitária, sobre a presença do que tem se perdido. Em suma, trata sobre o modo de tornar visível o invisível e fixar as imagens nítidas que já não vemos mas que persistem ainda como fantasmas que vivem entre nós.

Esta obra privada e clandestina, construída pacientemente em um sótão de uma casa em Buenos Aires se vincula, em segredo, com certas tradições da arte no Rio da Prata; para o fotógrafo de Flores, como para Xul Solar ou para Torres García, a tensão entre objeto real e objeto imaginário não existe: tudo é real, tudo está aí e alguém se move entre os parques e as ruas, deslumbrado por uma presença sempre distante.

A minúscula cidade é como uma antiga moeda grega submersa no leito de um rio que brilha sob a última luz da tarde. Não representa nada, salvo o que tem se perdido. Está aí datada mas fora do tempo e possui o status da arte, se desgasta, não envelhece, foi feita como um objeto inútil que existe para si mesmo.

Tenho recordado nesses dias as páginas que Claude Lévi-Strauss escreveu em O pensamento selvagem sobre a obra de arte como modelo reduzido. A realidade trabalha a escala real, “tandis que l‘art travaille a l‘échelle réduite” (“enquanto a arte trabalha a escala reduzida”). A arte é uma forma sintética do universo, um microcosmo que reproduz a especificidade do mundo sem passar pela mimesis.  A moeda grega é um modelo em escala de toda uma economia e de toda uma civilização e ao mesmo tempo é apenas um objeto extraviado que brilha ao entardecer na transparência da água.

Há alguns dias decidi, finalmente, visitar o estúdio do fotógrafo de Flores. Era uma tarde clara de primavera e as magnólias começavam a florescer. Parei diante da alta porta envidraçada e toquei a campainha que soou ao longe, no fundo do corredor que se avistava do outro lado.

Em seguida, um homem magro e tranquilo, de olhos cinzentos e barba grisalha, vestido com um avental de couro, abriu a porta. Com extrema amabilidade e em voz baixa, quase em um sussurro onde se percebia o tom áspero de uma língua estrangeira, me saudou e me fez entrar.

A casa tinha um saguão que dava para um pátio e no final do pátio estava o estúdio. Era um amplo galpão com um teto em dois planos e em seu interior se amontoavam mesas, mapas, máquinas e estranhas ferramentas de metal e de vidro. Fotografias da cidade e desenhos de formas incertas enfeitavam as paredes. Russell acendeu as luzes e me pediu para sentar. Em seus olhos de sobrancelhas espessas ardia um brilho malicioso. Ele sorriu por um instante, eu então joguei em suas mãos a velha moeda que havia trazido comigo.

Olhou-a de perto com atenção e logo afastou-a de sua vista e moveu a mão para sentir o peso leve do metal.

Um dracma  disse. Para os gregos era um objeto ao mesmo tempo trivial e mágico... A ousía, a palavra que designava o ser, a substância, significava igualmente a riqueza, o dinheiro. Fez uma pausa . Uma moeda era um pequeno oráculo privado e nas encruzilhadas da vida era jogada para cima para saber o que decidir. Lançou-a ao ar e pegou-a e cobriu-a com a palma da mão. Observou-a. O destino está na esfinge de uma moeda disse. Tudo vai dar certo. Levantou-se e marcou um lado. O plano de uma cidade se destacava entre os desenhos e as máquinas. Um mapa, disse, é uma sinopse da realidade, um espelho que nos guia na confusão da vida. É preciso saber ler as entrelinhas para encontrar o caminho. Fixe-se. Se alguém estuda o mapa do lugar onde vive, primeiro deve encontrar o lugar onde está ao olhar o mapa. Aqui, por exemplo, disse , está minha casa. Esta é a Rua Puán, esta é a Avenida Rivadavia. Você agora está aqui. Fez uma cruz. Este é você sorriu . Há representações que se unem com as coisas das quais são marcadas por uma relação visível. Mas nessa visibilidade fazem desvanecer o original. Quando se olha um objeto como se fosse a imagem de outro se produz o que eu decidi chamar de a troca sinóptica. Assim é a realidade. Vivemos em um mundo de mapas e de réplicas.

Essa era disse a ideia que animava os assassinos em série, matar réplicas, série de réplicas que se repetem e que é preciso eliminar, uma depois da outra, porque voltam a aparecer inesperadas, perfeitas, em uma rua escura, no centro de uma praça abandonada, como miragens noturnas. Por exemplo, Jack, o Estripador buscava descobrir no interior das vítimas o elemento mecânico da construção. Essas inglesas, belas e frágeis, eram bonecas mecânicas, réplicas.

Ele, por outro lado, diferente de Jack, o Estripador queria deixar de lado os seres humanos e apenas construir reproduções do espaço onde habitam as réplicas.

Falava cada vez mais rápido, em voz baixa, e eu só podia captar o sussurro de suas palavras que ressoavam como alucinações tranquilas.

A ideia de uma coisa que substitui outra coisa que é ela mesma e se substitui em seu duplo, nos atrai, e por isso criamos imagens. Mas enquanto o desdobramento representativo remete ao desdobramento de uma relação articulada sobre um relevo, a troca sinóptica o que eu chamo a troca sinóptica significa a supressão do relevo intermediário. A réplica é o objeto convertido na ideia pura do objeto ausente.

Depois disse que seu nome verdadeiro era um segredo no qual se fundamentava a cidade. Esse era o centro íntimo da construção.

A cruz do sul...  acrescentou, com um sorriso.

Houve um silêncio. Pela janela chegou até nós o canto distante de um pássaro.

Russel pareceu despertar e lembrou que eu havia trazido a moeda grega e que coloquei-a outra vez na palma aberta da mão.

Você que fez? Olhou-me com um gesto de cumplicidade. Se é falsa, então é perfeita disse, e em seguida estudou com a lupa as linhas sutis e as nervuras do metal.  Não é falsa, pode ver? Era possível ver leves marcas feitas com uma faca ou com uma pedra. Uma mulher, talvez, pelo perfil do traço. Veja bem disse , alguém neste ponto mordeu a moeda para provar que era legítima. Um camponês, talvez, ou um escravo.

Colocou a moeda sobre uma placa de vidro e observou-a sob a luz de uma lâmpada azul, depois instalou uma câmera antiga sobre um tripé e começou a fotografá-la. Mudou várias vezes a lente e o tempo de exposição para reproduzir com maior nitidez as imagens gravadas na moeda.

Enquanto trabalhava se esqueceu de mim.

Andei pela sala observando os desenhos, as máquinas e as galerias que se abriam ao lado, até que no fundo vi a escada que dava acesso ao sótão. Era circular e de ferro e subia até perder-se no alto. Subi tateando na penumbra, sem olhar para baixo. Apoiei-me no escuro corrimão e senti que os degraus eram irregulares e incertos.

Quando cheguei em cima a luz me cegou. O sótão era circular e o teto de vidro. Uma claridade nítida iluminava o lugar.

Vi uma porta e uma cama simples, vi Cristo na parede do fundo, e no centro do quarto, distante e próxima, vi a cidade e o que vi era mais real que a realidade, mais indefinido e mais verdadeiro.

A construção estava nesse lugar, como fora do tempo. Tinha um centro mas não tinha um fim. Em certas zonas nos arredores, quase na margem, começavam as ruínas. Nos confins, do outro lado, fluía o rio que levava ao delta e às ilhas. Em uma dessas ilhas, uma tarde, alguém havia imaginado uma ilhota suja de lama onde as marés colocavam periodicamente em marcha o mecanismo da recordação. Ao leste, perto das avenidas centrais, se edificava o hospital, com as paredes de azulejos brancos, onde uma mulher iria morrer. No oeste, próximo do Parque Rivadavia, se estendia, tranquilo, o bairro de Flores. Com seus jardins e suas paredes cristalizadas e ao fundo de uma rua com paralelepípedos desiguais, nítida na quietude do subúrbio, era possível ver a casa da Rua Bacacay e no alto, visível apenas na visibilidade extrema do mundo, a luz vermelha do laboratório do fotógrafo reluzindo na noite.

Estive nesse lugar durante um tempo que não posso recordar. Observei, como alucinado ou sonolento, o movimento imperceptível que pulsava na minúscula cidade. Por fim, olhei-a pela última vez. Era uma imagem remota e única que reproduzia a forma incerta e real de uma obsessão. Recordo que desci tateando pela escada circular rumo à escuridão da sala.

Russel, da mesa onde manipulava seus instrumentos, me viu entrar como se não me esperasse e logo, de um leve vacilo, se aproximou e colocou a mão no meu ombro.

Você viu? perguntou.

Concordei, sem falar.

Agora, então  disse pode ir e pode dizer o que viu.

Na penumbra do entardecer, Russel me acompanhou até o saguão que dava para a rua.

Quando abriu a porta, o ar suave da primavera veio dos sítios silenciosos e dos jasmins das casas vizinhas.

Tome disse, e me deu a moeda grega.

Isso foi tudo.

Caminhei pelas veredas arborizadas até chegar à Avenida Rivadavia e depois entrei no metrô e viajei distraído pelo rumor surdo do trem observando a imagem indecisa de meu rosto refletido no vidro da janela. Pouco a pouco a microscópica cidade circular se perfilou na penumbra do túnel com a fixidez e a intensidade de uma recordação inesquecível.

Então compreendi o que já sabia: o que podemos imaginar sempre existe, em outra escala, em outro tempo, nítido e distante, como num sonho.

Pós-escrito

Reproduzo o testemunho anterior tal como apareceu, em novembro de 2000, no catálogo da exposição O fim do milênio, sem outras alterações a não ser a supressão de algumas metáforas e de uma hipótese final que agora resulta desnecessária. Entre o começo da construção (que remonta segundo podemos suspeitar a 1970) e sua destruição há três meses, o prestígio e o conhecimento da cidade cresceu e se espalhou.

Russel sempre recusou que sua obra fosse divulgada e essa decisão converteu seu trabalho na mania de um inventor extravagante. E algo disso havia nele. Mas eu sei (e outros sabem) que esse trabalho insano, levado adiante durante décadas, é um exemplo da revolução que sustenta a arte desde sua origem.

Russel faz parte dessa linhagem de inventores obstinados, sonhadores de mundos impossíveis, filósofos secretos e conspiradores que se mantém distantes do dinheiro e da linguagem comum e que terminam por inventar sua própria economia e sua própria realidade. “Normalmente (escreveu Ossip Mandelstam) quando um homem tem algo a dizer vai atrás do povo, busca quem lhe dê ouvidos. Mas com o artista acontece o contrário. Ele escapa, se esconde, foge para a margem do rio onde a terra termina ou vai para o vasto rumor dos espaços vazios onde apenas a terra seca do deserto permite que ele se esconda. Seu andar não é por acaso evidentemente anormal? A suspeita de loucura sempre recai sobre o artista”.

Até o final Russel manteve vivo esse espírito de inventor de bairro e de amador: passava os dias em seu laboratório do bairro de Flores fazendo experiências com o futuro e com o rumor silencioso da cidade. Sua obra parecia a mensagem de um viajante que tem chegado a uma cidade perdida: que essa cidade seja a cidade onde todos vivemos e que essa sensação de estranheza tenha sido lograda com a maior simplicidade é outro exemplo da originalidade e do lirismo que caracterizaram seu trabalho.

O projeto foi visitado no estúdio do artista durante vinte anos individualmente por oitenta e sete pessoas, em sua maioria mulheres. Algumas têm deixado testemunhos gravados de sua visão e já há algum tempo esses relatos e essas descrições podem ser consultados no livro A cidade mínima, editado por Margo Ligetti, em março de 2001, com uma série de doze fotografias originais do artista.

Muitas obras argentinas são secretas homenagens a essa cidade secreta e reproduzem seu espírito sem nunca nomeá-la porque respeitam os desejos de anonimato e de simplicidade do homem que dedicou sua vida a essa infinita construção impossível.

A arte vive da memória e do futuro. Mas também do esquecimento e da destruição.

A cidade como sabemos pegou fogo em fevereiro deste ano e adquiriu imediata notoriedade porque apenas as catástrofes e os escândalos interessam aos donos da informação.

O fotógrafo morreu dois anos antes na obscuridade e na pobreza.

Da cidade agora sobrevivem apenas seus restos carbonizados, o esqueleto de alguns edifícios e várias casas do bairro sul que têm resistido em meio à destruição. A cineasta Luisa Marker filmou as ruínas e os últimos incêndios, e as imagens que vemos fazem pensar em um documentário que registra e percorre uma cidade que arde no meio de um eclipse nuclear.

Na penumbra avermelhada persiste a construção em ruínas, espectral, inundada pela água e semiafundada na lama. Certos indícios de vida têm começado a insinuar-se entre os restos carbonizados (casas onde as luzes ainda brilham, sombras vivas entre os escombros, música nas danceterias, e a sirene de uma fábrica abandonada que soa ao amanhecer). São parecidas com as imagens frenéticas de um noticiário sobre Buenos Aires no futuro remoto, e o que vemos é o brilho da catástrofe que todos esperamos e que certamente se aproxima.